segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Trocas culturais e extermínio de indígenas em SC

        "Na manhã ensolarada que se abria, dona Carola juntou as trouxas de roupa suja, uma pequena pedra de são e foi novamente às costas do rio Marombas para lavá-las, como fazia todo dia. Preferia ir sempre bem cedo e sozinha, nesta hora do dia não gostava da companhia das comadres, que eram muito faladeiras e acabam por atrapalhar o seu serviço. Não esquecia de levar duas cuias, uma com açúcar, outra com farinha, para presentear o bugre secreto que sempre espreitava a margem do rio.
Carola deixava as cuias em cima de uma pedra, que ficava um pouco distante da margem, na trilha de acesso que descia a barranca em direção ao leito do rio. Quando lavava as roupas não conseguia enxergá-la. Só quando estava encerrado o serviço é que, seguindo a trilha de volta para casa, passava pela frente da pedra recolhendo o presente deixado pelo bugre: um pequeno cesto, às vezes um cocar, colares de semente de imbuia, outras vezes pinhões e pele seca de capivara. Por muito tempo dona Carola trocou objetos com seu desconhecido amigo, sem nunca vê-lo. Não queria falar destas trocas com as amigas e os parentes, eles não entenderiam. Era uma viúva que já tinha visto muita coisa na vida, não tinha medo de caipora e nem de mula-sem-cabeça, queria continuar indefinidamente com estas trocas silenciosas que enchiam sua alma de paz e sensação de equilíbrio. (...)

       Certo dia de outono, a cerração matinal ainda era forte. dona Carola iniciava a bateção de roupas na margem do Marombas, quando escutou um forte estampido, seguido de um grito. Correu rapidamente à pedra e viu um menino índio morto. Atrás de uma capoeira distante levantou-se Clemente, seu sobrinho, apontando orgulhoso para a carabina que carregava, sinalizando á sua tia que tinha liquidado com o perigoso bugre que a espreitava desprotegida. Logo viram que o menino carregava apenas um cesto colorido.

      Depois desse acontecimento, os botocudos da região, como represália, fizeram alguns ataques aos sítios da redondeza e todos os homens de Curitibanos se armaram e liquidaram com a presença indígena em toda a bacia do rio Marombas".

Relato de Ilson Neves de Moraes em 13 de nov. de 1998, citado por Paulo Pinheiro Machado em: Bugres, tropeiros e birivas: aspectos do povoamento do planalto serrano. In: Ana Brancher e Silvia Maria Fávero Arend. História de Santa Catarina no século XIX. Florianópolis: Editora da UFSC, 2001, p. 11-12. Apud Lilian Sourient (el. all.) Coleção Interagindo com a História. Santa Catarina. São Paulo Editora do Brasil, 2005, p. 30-31.

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